Sonntag, Mai 27

"Minha vida é a esperança de te ver novamente. O demais são as obrigações e ossos do cotidiano".

Ele me escreveu isso e muitas outras palavras em 10 de outubro de 2005. Por algum motivo eu guardei. Guardei e esqueci em algum canto escuro da minha caixa de e-mail, em uma das mil pastas que eu abro cada vez que sinto necessidade de me organizar. E sinto essa necessidade sempre. Hoje eu encontrei. Fiquei um pouco desconcertada por ter sido eu o foco daquelas palavras. Pensei pela milésima vez porque eu não conseguia simplesmente me apaixonar por ele. Sei que ele seria capaz de me dizer essas palavras para sempre. Não, não é exagero. Ele seria sim. E ele diria outra vez que seria capaz de lembrar que roupa eu usei ou as palavras que eu disse ou os sorrisos que eu dei a cada vez que nos vimos. Gosto disso, de ser dona da lembrança de alguém. E pensando nisso, não sem surpresa eu encontrei outras palavras dele para mim, dessa vez de primeiro de agosto de 2006 e era assim:

"Não é sempre que sua vida pode ser perfeita e a minha foi, ali, graças a ela. Ela era capaz de me comover com um sorriso ou meia dúzia de palavras. Ela era capaz de me fazer ligar no meio da madrugada para jurar um amor eterno e bêbado. Ela é melhor lembrança que eu guardo de mim".

A lembrança outra vez. Espero que ele não se importe de ter roubado palavras que eram só para os meus olhos. Mas é por um motivo nobre. Talvez as mesmas palavras façam mais sentido para outra pessoa e, aí, ele terá conseguido ser a lembrança de outro alguém como eu sou a dele. Queria-o feliz.

Donnerstag, Mai 24

Não suporto ver Nina assim... longe. É como se a trouxessem à concretude e a sujeitassem ao princípio de realidade do qual ela estava absolutamente livre em minha imaginação. Subitamente ela é de carne. Subitamente ela é de uma liberdade que me oprime. Nina grita com toda a força dos pulmões e da alma: a vida que eu vivo poderia ser sua! Se você tivesse coragem. Falta-lhe coragem. Falta-lhe fome. Falta-lhe tudo. Sua felicidade me mata.
"9 musas" - mosaico romano do séc III D.c.


Ando pensando muito sobre a beleza e sobre a efetiva necessidade dela. Falo da beleza aos olhos da filosofia, não da beleza vulgar. E por vulgar não digo pior, mas daquele sentido de uso corriqueiro. Falo do belo que já foi sinônimo de bom, de enigmático, de natureza, de cultura, de ideologia, de... Dessa. Mais do que na beleza, ando pensando nesse universo instituído pela arte. Esse de liberdades, limites, como foi mesmo que ela disse, não-lugar. Isso prende o pensamento. O não-lugar. Ele está ali, não tenho dúvidas. Tampouco de que ele seja (ainda?) o lugar da liberdade. Não truco sua efetividade, mas a necessidade de sua existência. Melhor: se nós, seres humanos, dotados da tensão cultura/natureza, ainda clamamos por liberdade. Teremos ainda essa demanda? Ou nossa economia pulsional já sofreu modificações o suficiente para que liberdade saia da pauta dos desejos e das demandas? Pensar que isso é necessariamente ruim não é já ideologia? Será?

Dienstag, Mai 15

... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...
... a crueldade cotidiana elevada à condição de existência...

(de WB)
... que ando estourada, é o que me diz. Sim, ando. Vez por outra e a cada vez mais venho tendo esses acessos. Quero gritar que preciso de gente. Não dessas que me cercam todos os dias. Preciso de carne, osso e sensibilidade. E reajo quando não o tenho daqueles rostos conhecidos. Não, desses não posso admitir impessoalidade. Minha agressividade é pura auto-defesa. Minto: é puro desespero. Não admito-me sozinha no meio de tantos. Recuso-me à casualidade. Preciso encontrar alguém por trás dos sorrisos, dos olhares, dos atos. Encontro-os ocos. Então perdoe minha falta de tato, mas antes o grito como o último fio que me separa do absoluto desprezo. E da solidão.

Montag, Mai 14

Decifra-me ou... fique a ver navios. Há!
Eu a encontrei. Finalmente a encontrei. Nina. Sei que não vai se importar tanto, faz tempo que nem nos vemos mais. Acredito que não há mais ciúme entre nós, há? Mesmo assim andava reunindo coragem para contar. Faz quase um ano. Ela não me reconheceu de cara. Era trabalho.
(continua)
Para onde foi a minha felicidade que nunca mais voltou? Sempre desconfiei que felicidade e inocência precisavam caminhar juntas. Eu agora marcava de uma das pernas. E sem inocência meu andar ficou descompassado, torto, desesperadamente patético. Uma perna vazia à qual se prende a felicidade que tenta, em vão, acompanhar o compasso. Vazio não se acompanha. Vazio é um abismo e o mais substancial que nos proporciona é a vertigem. Vertigem não se parece com felicidade. Não se parece com alegria. Não se parece com contentamento. Não se parece, é suspensão apenas. Para onde ela foi?

Mittwoch, Mai 2

Não desejo falar com você. Nem com você. Com você também não. Não. Não. Não, desculpe-me. Infelizmente com você também não...

- "Nina não está recebendo ninguém no momento. Não, ela não fala, não manda ou recebe recados, não atende porta nem telefone. Nada. Pediu respeito ao momento reclusão".

Placa na porta: away.